Avaliação de nadadores e controlo do treino: tarefa impossível?
Tinha agendado para a crónica deste mês voltar à temática que me fez aceitar o honroso convite de cronista do Chlorus: a avaliação de nadadores e controlo do treino (ACT). Assim o farei, mesmo tendo sempre presente o mau momento que a natação regional está a passar. De facto, não sendo suficiente a notícia que, mais uma vez, o balão insuflável que habitualmente cobre a Piscina Municipal de Campanhã esteve inoperacional (ora é o mau tempo, ora são os actos de vandalismo ou o monta/desmonta característico das estações do ano), também se soube das dificuldades que o CF Portuense está a passar (não dispondo de piscina aquecida para treinar), assim como da extinção da Secção de Pólo Aquático do CP de Natação. Isto já para não falar no vazio financeiro em que se encontra o CDUP, o que levou ao encerramento das actividades relacionadas com a prática competitiva de Natação Pura.
Assim, tendo em conta as dificuldades acima descritas, achei por bem salientar que a técnica de nado também se pode avaliar e controlar recorrendo a instrumentos simples e não dispendiosos. É claro que quanto mais minuciosa e detalhada se quiser a análise, mas “tecnológica” terá de ser a avaliação, recorrendo, por exemplo, a filmagens de duplo-meio, isto é, juntando as imagens de superfície às subaquáticas, as quais, depois de combinadas numa mesa de mistura, permitem a construção da imagem integral do nadador. Posteriormente, poder-se-á digitalizar os pontos anatómicos do nadador (aqueles que o treinador quer avaliar, ex: punho, cotovelo ou anca) para se conhecer objectivamente os parâmetros cinemáticos que determinam a técnica do sujeito em questão (velocidade, aceleração, amplitudes de ciclo, etc…).
Da minha experiência como treinador e como membro de equipas de ACT, retenho que a maioria dos nossos nadadores nunca se observou a nadar ou, pelo menos, e utilizando uma expressão popular, “nunca se viram com olhos de ver”, querendo isto dizer que nunca se preocuparam em observar os seus trajectos motores segundo critérios objectivos. Sabendo nós que o meio líquido é deformável e não compressível, a trajectória dos membros superiores (MS) nas técnicas de nado deverá procurar “zonas de água parada”, isto é, descrevendo um “s”, de forma a obter apoio durante todo o ciclo de MS. Assim, proponho as seguintes estratégias, a usar consoante as condições e disponibilidade de cada um:
- nadar crol com snorkel, observando a entrada e respectiva extensão à frente do MS, a qual deve ser acompanhada por uma bastante pronunciada rotação lateral do corpo, não para respirar, mas para aumentar a distância por ciclo;
- sem snorkel, dirigir o olhar para o fundo da piscina, focalizando a atenção na acção dos MS, a qual, em crol, deverá ser na seguinte ordem (depois da entrada e deslize): descendente, interior e, por fim, ascendente. O ponto-chave de qualquer “braçada” será ter o “cotovelo alto” (na técnica de costas é o oposto por o nadador se encontrar na posição dorsal), o qual funcionará como o eixo de uma hélice;
- observar a recuperação do MS, certificando-se que se inicia após ter passado a bacia e que se realiza com o MS em flexão (em crol) ou em extensão (em mariposa e costas);
- “nadar” em frente a um espelho, movimentando os MS como se estivesse na piscina, pois o trajecto motor realizado “em seco” é semelhante ao que se realiza na água;
- observar-se em filme e comparar com imagens de nadadores de elite (que facilmente se encontram no YouTube, por exemplo). Os filmes “não mentem” e, como tal, quer sejam realizados pelos treinadores, quer por si próprio, os benefícios que se poderão tirar dessa visualização poderão ser enormes;
- quando o bom tempo retornar, e os treinos forem feitos ao ar livre, observe a sombra do seu corpo no fundo da piscina, tendo em consideração os requisitos para uma boa técnica de nado (”braçada comprida”, por exemplo).
Após ter realizado estas tarefas por um período considerável, faça o seguinte exercício: realize 2 repetições de uma distância à escolha contando o número de ciclos de MS que realiza, sendo que na 2ª repetição vai concentrar-se em tudo que aprendeu com os exercícios anteriores. O número de ciclos de MS realizados para a mesma distância na 2ª repetição vai ser substancialmente menor, justificando todo o trabalho técnico realizado. A melhoria da técnica de nado vai torná-lo mais eficiente, o que levará a mais elevadas velocidades de nado. E tudo isto sem ter que treinar mais horas e mais metros.





Parabéns
Quero dar os Parabéns pelo artigo, gostei muito, sou adepto da simplicidade e humildade, e foi com grande prazer que li o artigo e mais uma vez comprovei que o que é preciso acima de tudo é boa vontade, trabalho e querer sem comodismos evoluir e aprender. Abraço