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Uma questão de coerência

Nos diminutos anos que estive “activamente” ligado ao Pólo Aquático, não tenho memória de um campeonato da 1ª Divisão com tamanha incerteza nos resultados dos jogos, bem como das sucessivas alterações na tabela classificativa. Independentemente do(s) motivo(s) que geraram esta nova realidade desportiva, por certo despertará um maior interesse e curiosidade em cada jogo da primeira divisão. Esperemos assim que haja uma repercussão directa no número de espectadores nas piscinas.

A última jornada não foi excepção e assistiram-se a vários resultados no mínimo imprevisíveis, de onde se destaca a “derrota” da Portinado diante do Louletano, por motivos regulamentares. São precisamente esses motivos que catalisaram este artigo.

Para os mais desatentos, estamos concretamente a falar do Capítulo 7 do Regulamento de Competições Nacionais 2008/2012 de Pólo Aquático, mais concretamente do Ponto 7.1. onde versa: “Na categoria de Seniores Masculinos cada equipa terá, num mesmo jogo, que utilizar pelo menos 5 (cinco) jogadores dessa categoria, podendo os restantes ser do escalão júnior ou juvenil”.

Existem aqui três questões que convém ressalvar à partida: i) Não poderemos, nem devemos personalizar este facto. Ele deve ser o “ponto de partida” para as equipas nacionais de Pólo Aquático reflectirem a sua organização interna. Repensarem a sua estruturação e planeamento não por época, mas a médio e longo prazo; ii) Se este regulamento está em vigor, significa que contou com a aprovação de uma maioria de pessoas/entidades que, acima de tudo, se consideram responsáveis, defensores do bem-estar e evolução da modalidade e são representativas do Pólo Aquático nacional; e por último, iii) Todas as equipas nacionais, ao se inscreverem nas respectivas competições estão a assumir e a aceitar os regulamentos em vigor, como tal ficam sujeitas a eles.

Assim sendo, a polémica gerada após a 7ª jornada, tem tanto de pertinente como de infundada. Penso que acima de tudo o grande problema é a coerência, ou a falta dela.

Recordo-me que ao longo das várias épocas que estive presente em reuniões de início e final de época da Associação de Natação do Norte de Portugal, esta questão da limitação de utilização de jogadores de categorias inferiores (no que respeita aos escalões de formação) encontrava-se não raras vezes nos assuntos a debater. O resultado, esse repetia-se ano após ano. A pedido dos clubes presentes, adiava-se para a época seguinte a aplicação da regra, com prejuízo efectivo do futuro das equipas, do futuro individual dos jogadores, simplesmente para cumprir o requisito, aparentemente aceite por todos como positivo, de haver mais equipas a competir. A promessa ficava no ar: os clubes comprometiam-se cumprir esse requisito no ano seguinte.

Posto isto, existem agora dois caminhos possíveis e com eles duas realidades completamente distintas: i) Esta regra é religiosamente aplicada em todos os escalões, doa a quem doer, mesmo que isso significa a extinção de alguns escalões em algumas equipas, terminando de vez com este ciclo vicioso. Consequentemente, as equipas terão de se reajustar, criando novas estratégias que esperadamente daqui a alguns anos as tornarão mais homogéneas, mais numerosas, com uma formação de qualidade, com uma formação de jogadores no tempo certo, durante o tempo certo, sem se saltarem etapas.

Assim, o Pólo Aquático português aproximar-se-á do nível dos países que ambicionámos ter; ou, ii) Voltamos a adiar a aplicação desta regra, continuamos a ter jogadores a saltarem de escalão em escalão, ultrapassando fases de formação fundamentais que jamais recuperarão, equipas que sobrevivem à custa de um par de jogadores, mantendo um nível desportivo medíocre, num campeonato de “trazer por casa”. Pede-se acima de tudo que haja coerência seja qual for a decisão a tomar. Aumentemos o nível de exigência a clubes, associações e federação. Porque se por um lado, esta situação imporá aos clubes novas necessidades, os quadros competitivos devem ser objectivamente revistos, de maneira a que todos os escalões possam usufruir de competições atraentes, desafiadoras e propícias ao desenvolvimento individual e colectivo.

Desenganem-se optimistas, cépticos e pessimistas, esta medida por si só nem levará ao fim do Pólo Aquático em Portugal, nem o conduzirá ao topo da Europa. É apenas uma das muitas alterações necessárias para dar credibilidade à modalidade no nosso país e dar um passo em direcção à evolução. Não é nem o telhado, nem os alicerces de uma casa que se quer construir, ou melhor remodelar. É meramente um ponto de um ciclo. O ponto foi definido, a partir dele é necessário criar condições que permitam dar resposta aos novos desafios. Mas isso já é prosa para outro artigo…